Diga isso por palavras

Pode dormir, pode descansar, 
digo num ritmo lento de embalar:
Pode dormir, pode descansar.

E a noite inclina-se sobre o sol breve 
e o tempo esquece o que já teve.

“Que horas são?” — lançou, 
E tenta regressar ao tempo que passou.

“vinte e duas e cinquenta e três…”
(o momento passou com rapidez)
Agora, já são vinte e três! 
Ou onze.

As horas caem devagar, 
Sinto-me sem chão seguro onde pousar.

“Descanse agora, feche os olhos,”
Repito-lhe em passinhos de lã, 
sem pressa nem manhã.

“Relaxe o corpo, deixe-se ir…”, 
como se o sono soubesse vir.

Mas há ainda um fio que se agarra, 
um resto lúcido que não se cala:
diga isso por palavras,
que o mundo foge, não fala.

Diga isso por palavras,
mesmo que o som se mascare no silêncio.
Diga isso por palavras.
mesmo que a noite venha (a)pagar.
Diga isso por palavras.
mesmo que o dia amanhã ja não o recorde.

Diga isso por palavras.

Porque entre o ficar ou ir,
há coisas que só vivem ao existir
E na voz que chama, que quer guardar:
diga isso por palavras, depois vá descansar.

E se alguém ainda souber, não só embalar ou tocar,
mas ser.
diga isso por palavras e me afague,
Porque eu já esqueci outra vez, o que ia dizer. 


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