Death cafe
O fim de tarde é sempre desafiante. Aproxima-se a hora de dormir…ela tem medo da noite. E não é a única. A muitos deixei a luz do candeeiro acesa, a poucos a da casa de banho privativa do quarto. À Maria deixei a luz de presença. Antes ainda de me despedir, tivemos naquele bocadinho uma conversa aberta, sincera, serena sobre morte. Numa escala numérica de 0 a 10, onde 0 é sem tristeza e 10 a maior sensação de tristeza, ela sentia-se um 5. E desenvolveu. Falámos de envelhecimento, de impermanência, de vida, de luto. De senescência. A vida foge-lhe (diz). Desejava menos lucidez, para não usufruir da vida com tanta sensatez. Mas ela ama a vida. Sempre amou. Agora, inspeciona as suas mãos. Soam a folhas leves, com vidas breves e pecíolos delicados, que merecem ser com carinho tratados. Envelheceu e angustia-se por isso. Também existem lutos em vida. E a Maria está a fazer o seu. Perdeu independência, mas não a autonomia. Sabe que há fases, e esta é uma delas.
Olhei atenta. Os seus olhos estão tristes. Revelei-lhe (e talvez tenha soado a novidade, ou não), que estar triste é ser-se humano. E que ela também pode. Validei os seus sentimentos e encorajei a aproveitar momentos como este para falar sobre estes assuntos difíceis. E ali a Maria nunca chorou, embora triste. Talvez porque falámos com verdade, do coração. Foi um bonito death café.
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