Temp
Eram 7 e picos da manhã, não sei ao certo quantos. Privilegiei o começo da volta na ala norte, pois sabia que demoraria mais tempo no sul. Foi no 102 que tudo aconteceu. Uma magia, talvez. O amor tem destas coisas. Já tinha estado com a Maria numa outra vez. Na vez anterior ela tentara dizer-me o contínuo de uma frase, ou de um verso…descobri esta manhã. Tratava-se de um poema de Frusoni do qual a minha doente repetia versos cadentes.
Fomos mudar-lhe a fralda. Abre atilhos, destapa fralda tamanho L, limpa com esponja previamente embebida em água quente, seca com toalha, mobiliza cateter…e no meio destas tarefas, eis que lancei um “oh Margarida, sabia que a Maria esteve e adora Cabo Verde”, ao ouvir-me falar no arquipélago, abre os olhos e fixa-os. E começa a recitar “um vês na cab verde era sab”. Pois não sei como conseguimos que ela dissesse tratar-se de um poema de Sérgio Frusoni. Ilumino-me e tiro o meu iPhone, procuro o poema e começo a recitá-lo. Éramos três. Na Margarida via os olhos ficarem molhado, cheios de água; a Maria olha-me atentamente. Quanta comoção. E termina cada quadra que recito enquanto vai bebericando o iogurte líquido que apanhei na cabeceira. Eu, já em suores, paro por minutos e reconheço a minha emoção. Sigo em frente. Declamámo-lo juntos. No fim não resisto, não consigo. Emociono-me e choro. Devolvo-lhe “Oh Maria já me pôs a chorar” e na sua maior inocência lança-me um beijo no ar. Que ternura. Faço-lhe um gesto, uma carícia na face enquanto agradeço tal benção. Pedi permissão pra trazer o poema pra o seu quarto. Ficou tão bem lado a lado do emblema do sporting! Saí de lá sem palavras. Isto tem que ser partilhado com as pessoas que precisam amar.
Cá vai.
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