Quarenta
São 11h a um sábado solarengo. Entro no 24.
- Ana? Ana?
- Sou eu! Bom dia!
Alegra-se e faz-me sinal para que a abrace. Puxo o banco mais próximo, um banco desdobrável e sobre ele uma almofada azul escura. Sento-me próxima dela, de forma que os nossos olhos estejam alinhados.
- Está tão bonita! - diz-me; e continua. - Tome cuidado! Ai esse banco! - adverte-me. - Veja lá não caia minha amiga.
- Se eu cair, a dona Maria apanha-me! (risos)
Elogia o brilho dos meus lábios e deseja pintar os seus. Pede-me que vá à sua cómoda e traga o “da Channel”. Seguro o espelho de mão. Ela com a mão direita no batom rosa abrilhantado e a esquerda penteia os seus cabelos brancos muito bem postos. Com a motricidade fina mantida pincela os lábios meticulosamente e pressiona-os, um contra o outro. Verifica, por fim, ao espelho, o resultado. Está satisfeita.
- Está tão bonita! - Devolvo.
Hoje o dia foi de mais recordações. “Quando é que se sentiu mais viva?”. - Já fui moça, rapariga, uma mulher…mas aos quarenta…Tem-se idade para compreender a vida. Há pessoas que dizem aos 40: «Estou Velha». Estás muito enganada!
O marido foi a melhor coisa que teve e aos filhos. Diz que o segredo é a felicidade e a compreensão…recorda os tempos da sua mocidade e contrasta com a atualidade. “Não crítico” , diz em voz alta e rio-me com ela. “Um decote é sempre um decote, mas as maminhas? São muito nossas!” Sempre teve muito cuidado com a sua imagem, diz confessando. Gostava de se vestir e maquilhar e o marido também apreciava. E define-se uma mulher moderna. Sempre usou mais calças que saias, “mais confortável”, desabafa. “Vi muitos rabos a subir o autocarro!” Ri-se. Fica tão bonita quando sorri.
Entretanto interrompe. “É servida?” Dá dois goles na sua chávena de café frio e trinca uma das fatias de bolo inglês que o filho lhe deixara num tupperware. Delicia-se. Diz-se ser feliz mesmo sendo uma mulher de noventas. Apesar da dependência e mobilidade reduzida, está em sua casa e com todas as coisas desde a 1ª martelada. “O meu filho é que toma conta de tudo, para que eu tenha alguém sempre comigo”. Nota-se a gratidão.
Diz-se uma mulher moderna, ao mesmo tempo que se designa velha. Li algures "Nasceste para ser tantas coisas"…e achei, é claro! Não concordam?
Eis que conclui o diálogo dizendo que “vivas que o que viveres Tout passe, tout casse, tout lasse. Portanto, aproveita o presente, o agora…”
Oh Maria…(pensei).
P.s. Tout passe, tout casse, tout lasse é uma locução francesa que significa tudo passa, tudo acaba, tudo esquece.
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