Como o cão no couro
No ar o cheiro a arnica.
E ela esperava-me sentada na cadeira de rodas na sala de estar.
Bato a porta para entrar
Alguém pergunta “quem é?
Respondi, sou eu Maria José!
Hoje está preocupada e com tosse.
“sinto-me como o cão no couro”, Esclareceu.
Está gripada, mas mantém aquele ar doce
E a vontade em manter a conversa habitual, Parece.
Em discurso espontâneo
e em tom de desabafo
diz que tudo é momentâneo
Que não quer dar o bafo.
A vida foge-lhe.
Desejava menos lucidez,
para não usufruir da vida com tanta sensatez.
Mas ela ama a vida.
Então conversámos,
Sobre a vida, abertamente falámos
Misturando bocadinhos de morte e impermanência
De velhice e senescência
Inspeciona as suas mãos.
Soam a folhas leves, com vidas breves e pecíolos delicados, que merecem ser com carinho tratados.
Inspecionei-lhe as mãos.
Lembram folhas caducas e frágeis
Castanhas e vulneráveis
Contam histórias de sabedoria
Eu sei…
Um dia serei como a Maria.
Então Despeço-me e abraço-a longamente
E sussurro-lhe ao ouvido…até para sempre.
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