Levei-lhe uma gérbera amarela
Hoje levei-lhe uma gérbera. Mas ela gostava de as ter eternas, pois fala-me sobre as flores artificiais: para que fiquem indefinidamente e não morram. Escolheu a jarra maior e vazia que tinha na sala. Uma jarra em forma de balaústre, branca com pequenos motivos florais e cornucópias douradas. Pousada sobre o antigo baú castanho perto da janela. Já a ouvira falar noutras vezes sobre flores. Não referiu nenhuma em especial. Então, levei-lhe uma gérbera.
Já vos disse que levei uma gérbera? Escolhi a amarela. É luz como a Maria. Hoje com 97 anos, revive momentos da sua longa vida. Descreve os acontecimentos como se de um livro se tratasse. Os pormenores, a sequencialidade, a emoção. Quis que visse uma fotografia em tela que tem no quarto. Ela e o filho. Falou sobre cada centímetro daquela tela que está na parede aos pés da sua cama. Orgulhosamente fala dele «…já tem a doença há muito tempo [uma doença crónica, incurável e progressiva]. Mas logo que soube, foi estudá-la! Para aprender a viver com ela». A Maria é alegria, como a gérbera amarela. Então, hoje levei-lhe uma.
Levei-lhe uma gérbera. E agradeceu-me várias vezes. «Já lhe agradeci?”». Despede-se com o habitual beijo na polpa dos dedos da sua mão direita e envia para o ar como quem manda um avião de papel. A Maria é pureza, como a gérbera. Aquela que lhe levei hoje.
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