Testemunhar a vida

É sobre os barulhos pontuais, as saudações iniciais e as finais, as luzes acesas num quarto que tem luz. E não estou a falar de eletricidade.

É sobre os sorrisos que aparecem;

E as lágrimas que não se esquecem.


É sobre receber os que mais se ama, na cama;

E convidar a sentar em qualquer lugar.


É sobre a liberdade de escolha utópica de querer ir embora. E mesmo assim manter a esperança de um dia ser livre.


É sobre querer voltar para Casa quando a única certeza é que o hospital, agora, é casa.


É sobre poder trazer as molduras, as fotografias, os desenhos dos filhos, dos netos e dos bisnetos; é sobre o relógio da cabeceira de Casa que, só aquele, dá horas certas. 


É sobre ter o álbum de fotografias do ano de 68 e não precisar abrir…só de olhar, recordar um mar de vivências.


É sobre ter bibelot espalhados pelo aparador do quarto rodeados de flores. Muitas flores. De todas as cores. 


É sobre essas flores que abraçam os bibelot, as fotografias, os álbuns e o relógio. 


É sobre ter espalhados outros desenhos na parede.


É sobre um papel branco, cheio de cores e alegria. A avó desenhada com um grande sorriso e uns óculos redondos a segurar a mão do neto. Cabeças grandes, mãos pequenas e braços finos. O sol está no canto superior, com raios amarelos e um rosto sorridente. Há flores coloridas no chão, em tons de vermelho, azul e roxo, com um céu azul que ocupa quase metade da folha. E há uma dedicatória com letras tortas: “Para a melhor avó do mundo”.


É sobre as dedicatórias ao longo da vida, e no final da vida.


É sobre a luz natural que chega ao quarto.


É sobre a chegada da naturalidade que se permite.

A leveza que se permite.

A serenidade que se permite.

É sobre a genuinidade que se permite.


De que o corpo já não é o mesmo, 

os cheiros já não são os mesmos, 

o paladar já não é o mesmo, 

a fome já não existe,

A sede já não insiste; 

Ele não desiste, 

Existe. 


De que o conforto que persiste no toque, no cuidado, no olhar, na boca gentilmente molhada; na palavra doce.


De que o corpo mole, sem tônus, já não obedece a comandos. Já não quer esforçar. Mas antes celebrar e agradecer.


De que Os olhos fecham, num adeus sereno,

E está tudo bem.

De que A luz do mundo se esconde, pequeno,

Mas está tudo bem.


De que A respiração, suave, desacelera,

Um vento que se acalma, já sem espera,

E está tudo bem.


De que O coração, cansado, bate devagar,

Como quem sabe que é hora de descansar,

E está tudo bem.


De que Os rios do corpo param de correr,

E A vida se despede, pronta a ceder,

E está tudo bem.


De que no fim, o silêncio abraça,

E há paz na partida, sem pressa ou ameaça,

E está tudo bem.


De que Ficar é uma quimera. 


De que teve tempo para se despedir devagarinho 

E no final ainda me pôde dar um beijinho [na testa].



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