O Sol é brêtema
Hoje o dia começou nebuloso, há dias assim. O Sol existe, mas às vezes, esconde-se atrás das nuvens; Da umidade. A obscuridade na atmosfera é, por vezes, o emaranhado de emoções menos felizes (mas necessárias) que nos dão forma enquanto humanos. O caminho é confiar que está tal e qual como deve estar. O Sol há-de se mostrar.
E mostrou-se. A brêtema deu lugar ao Sol, que convidou a banhos de outono e a passeios boreais. O meu terminou na casa da Maria. Depois da habitual rotina hospitaleira, sentei-me ao lado dela, à mesa. Estava como na maioria dos dias, curvada na cadeira, óculos postos e muito bem agasalhada. Permitiu-me que a cumprimentasse oferecendo-lhe ambas as mãos. Sorriu e eu sorri de volta.
Hoje…
Li-lhe um conto popular
Sobre compaixão e como o próximo ajudar.
Umas sete páginas contadas
Trouxeram outras tantas gargalhadas.
E pegando no propósito da lavadeira
Levei comigo a ideia
De um caderno sensorial levar
Para a cognição estimular.
Ao som de oitavas
Deixou-se envolver e
Os tempos de Jacinto e Quitéria reviver.
Pegando meticulosamente nas peças para estender
E cantando algumas das palavras.
A Maria tem demência. Hoje não é capaz de ter uma conversa complexa, mas gosta de momentos de estar, de fazer e de s(e)rrir. Disfruta de poucos minutos na atividade, mas os poucos para ela parecem horas a fio. E é o que faz sentido. Quando me venho embora penso, em tom poético, mas em boa verdade: que no nevoeiro também há Sol. E naquele que vive com o demência também tem vida. Então, há sempre algo que podemos fazer…
P.s. por mais tardes assim (cruzo os dedos).
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