Só por hoje …estou verdadeiramente

    Nota-se que o tempo passou, como ela justificou naquele dia tantas vezes o seu cansaço. Mas ela continua à espera ao sábado às onze horas, sentada na mesma cadeira de rodas azul, com ambas as pernas elevadas sobre um banco desdobrável, a 1 metro da televisão e a ver o terceiro canal onde passa Alô Marco.

    O encontro teve os habituais 60 minutos de duração, mas um pouco diferente dos anteriores: mais silencioso. Apresentei-me:

- Sou a Ana. 

- Eu sei, disse ela. 

Continua bela, dando-me o exemplo de aceitação da fase do ciclo que atravessa. A pele branca e manchada. As rugas, na face, e nas mãos arranjadas. A ptose palpebral dela acentuou-se. Já não lhe vejo o olho claro direito. E o esquerdo abre com algum esforço. Veste uma T-shirt rosa e umas calças de pijama largas a combinar. Tem calçados paez. Fala. Suspira. Fala outra vez. Suspira por último. Mas o discurso é parco e hipofónico. Leva várias vezes a mão à cabeça e a cabeça à mão, em atitude de reflexão. Faz notar o esquecimento. Fala sobre várias coisas em simultâneo. E eu acolho.

     O encontro continuou silencioso, mas não diferente a necessidade dela de presença.

- Já viu que hoje não estou muito faladora (disse).

    Revelou que se lembra, não com consistência, mas ainda vagamente de que gostava de falar. Que gosta! Por mais de meia hora o diálogo foi o que ela quis que fosse. Do que ela se lembrasse. Quisesse. Visse. Falou das flores e dos filhos, e das flores outra vez. Fizemos silêncios curtos. Pensei o que poderia fazer de diferente hoje por ela. Propus-lhe uma massagem nas mãos. - Pode ser! - Nos restantes trinta minutos a conversa teve como fundo, música e massagem. O tema da conversa? Foi o que ela quis que fosse. Do que ela se lembrasse. Quisesse. Visse.

- Ainda tem lá…Ainda tem lá.

- Ainda tem lá? O quê?... 

Não respondeu. Semicerrou os olhos e pousou a cabeça na mão direita.

(silêncio)

- Sabe que dia é hoje Maria? Dia 22 de junho, chegou o verão.

Nada disse.

(silêncio)

Ao fundo, a música de Roberto Carlos “Mulher de 40” interpretada por Marco Paulo.

- Ahhh… (suspira fortemente a Maria)

- Ai que suspiro…este suspiro saiu cá de baixo.

- Diga?

- Este suspiro veio aqui mesmo do fundo (falei alguns decibéis mais alto e apontei, em simultâneo, para o seu abdómen).

- Veio? Não me diga…, - enquanto solta uma gargalhada, a primeira do encontro; e continua - Às vezes, apetece-me…

- O que é que lhe apetecia fazer?

- Nada.

- Que horas são? (perguntou)

- Meio-dia (e batem as dozes badaladas no grande relógio de parede atrás de mim).

- Maria…Tenho que me ir embora.

- Ah. Eu sei. Por isso que estava a pensar nisso, a perguntar pelas horas. Hoje deve pensar que estou “xoxa”.

- Mesmo que esteja, está tudo bem. Todos temos os nossos dias.

- Eu sinto, eu sinto que…

- Sente que?

- …Vá com Deus.

- Obrigada. E a Maria fique com ele também.

- Obrigada.


 


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