Memorial
Um homem acabou de morrer e está acompanhado pela sua esposa no leito da transição.
Sou ausência visível. Tudo em mim é silêncio agora, um silêncio cheio de amor, cheio de ti, amor. Escapuli-me, para o teu peito para sempre. Está tudo tão quieto, e ainda assim — tu falas. Não sei se parti, ou se apenas parei. Embora não fale, sinto-o, nos outros sentidos. A tua voz surge como brisa. O vento só é audível quando alcança a audição. Ela ergue-se doce, sem pressa, como quem sabe que não há mais tempo, mas também não há mais medo.
Dizes o meu nome, como se fosse a primeira vez.
Contas-me que não devemos a ninguém,
que queres vir comigo. Que a vida em solilóquio não tem sentido.
que não esperei por ti, “queria proteger-te meu amor”. Parti pouco tempo que foste. Quarenta menos três. Disseste que já voltavas, eu apenas jaz. Queria responder-te, abraçar-te mais uma vez, infinitamente. Então beijas-me, demoradamente como de costume. O teu beijo Terno, quase tímido. Sinto-o em profundidade no malar, na testa, no malar outra vez, e na mão. Um roteiro carinhosamente exibido para mim, perante Deus. Os outros, talvez pensem de que monólogo se tratará. Não é comiseração, pois então. Antes comoção.
Os rios do meu corpo migram fluentemente de jusante a montante. A minha pele vai ficando gélida. A tua, quente, ainda pesa sobre a minha. Não me mexo, mas sinto. Sinto tudo —
o sal dos teus olhos, a coragem na voz, o amor na tua pulsação. Tudo jaz, mas o amor não. E o meu por ti, jamais.
Comentários
Enviar um comentário