O medo é um bicho
Não sei se é um inseto; ou réptil
Ou uma criatura híbrida.
O bicho pode ser um réptiseto: de escamas finas e asas translúcidas, que rasteja e zune ao mesmo tempo.
O medo é um bicho que não fala. Ele vagueia.
Não sei se tem a boca abaixo dos olhos ou as patas abaixo da cabeça. É um bicho.
O medo é um bicho.
Na consciência de quem pensa, ele não existe; mas é precisamente aí que a sua existência se revela.
Ele vive na experiência de quem o vive.
E resiste no corpo de quem não o desvela.
O medo é um bicho.
Que hibernou em alguma estação e não quis sair para que eu sobrevivesse.
Alimentou-se das minhas vísceras e deixou os cacos para eu apanhar.
O bicho quis ajudar, mas eu não percebi.
O medo é um bicho.
Que teve a coragem de viver em mim, sem nunca dizer uma palavra.
É um bicho que todos temos, embora nos neguemos a escutá-lo.
Ele torce o corpo, contorce o estômago e gela a alma.
O medo é um bicho.
Era o papão do escuro, do desconhecido e do abandono.
Hoje, o papão mudou de morada: mora na minha cabeça.
O medo é um bicho.
O bicho mexeu.
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